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Agroindústria canavieira: açúcar x etanol  

08/02/10 - Não há dúvidas que a implantação do Programa Nacional do Álcool(Proálcool) modificou o perfil produtivo da agroindústria canavieira que, até então, tinha na produção de açúcar o seu principal carro chefe.

Criado em 1975, o Proálcool objetivou a substituição de combustíveis derivados de petróleo por uma fonte alternativa renovável, sobretudo, em função da grave crise de petróleo que se abateu sobre o mundo (inicialmente em 1973 e posteriormente em 1979). Mesmo sendo considerada uma idéia de sucesso, o etanol ainda era visto, na época, como um grande desafio, não só pela necessidade de instalações de novas usinas e modernização da infraestrutura existente, mas, também, por ter que competir com as vantagens de se produzir açúcar. Pode-se dizer que foi a partir da safra 95/96 que o etanol passou a ter um grande impulso como combustível e fonte energética, mormente, em função do sucesso do carro movido com a tecnologia flex.

Além da produção de etanol, açúcar e da absorção de novas tecnologias, a agroindústria canavieira também expandiu a sua fronteira agrícola, possibilitando a obtenção de maiores níveis de produtividade. Se nos atermos aos dados de safra do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento(MAPA) e da União da Indústria de Cana-de-Açucar(ÚNICA) sobre a quantidade de cana processada pelas usinas brasileiras, veremos que a produção nacional - regiões Centro-Sul e Norte-Nordeste - saltou de 251,8 milhões/ton. na safra 95/96 para 569,0 milhões/ton. na safra 08/09, ensejando um crescimento de 126%. No mesmo período, a cana processada na região Centro-Sul cresceu 147%, bem acima da média nacional, enquanto que no Norte-Nordeste esse crescimento foi de apenas 35,0%.

É importante observar que na safra 95/96, as usinas da região Norte/Nordeste processaram 47,4 milhões/ton. de cana, o que representava 18,8% do total produzido, enquanto que na safra 08/09 essa produção foi de 64,0 milhões/ton. (dados até maio/09), ou seja, 11,2% de toda cana processada no país. Os números evidenciam o encolhimento da participação da cana processada no Norte/Nordeste, face à região Centro-Sul, o que pode ser explicado pela qualidade do solo, baixa pluviometria, dificuldades na mecanização etc.

No que se refere ao etanol hidratado (álcool combustível), os números sinalizam para uma produção nacional de 9,5 bilhões/litros na safra 95/96 contra 18,2 bilhões/litros da safra 08/09, representando uma evolução da ordem de 90,5%. Todavia, se a produção do país expandiu-se nesse patamar, o etanol produzido na região Centro-Sul cresceu a uma taxa de 104,9%, enquanto que o Norte-Nordeste apresentou um crescimento negativo de -0,6%, no mesmo período. Deve-se ressaltar que na safra 95/96, o etanol produzido no NO-NE representava 13,7% da produção nacional, tendo essa participação se reduzido para 7,2% na safra 08/09 (dados até maio/09). Vale afirmar, também na produção de etanol a região perdeu a sua importância relativa.

Com relação à produção brasileira de açúcar, esta passou de 13,5 milhões/ton na safra 95/96 para 31,0 milhões/ton em 08/09, ou uma variação positiva de 129,6%. No mesmo intervalo de tempo, a evolução da produção de açúcar no NO/NE foi bastante tímida, cerca de 30,3%, se comparada com a produção da região Centro-Sul que cresceu 161,8%, patamar bem superior à média nacional. Em 95/96 o açúcar do NO-NE correspondia a 24,4% da safra nacional, tendo se reduzido para 13,8% em 08/09 (dados até maio/09). Ou seja, a queda na produção de açúcar indica que a contribuição da região está cada vez mais se distanciando da produção nacional.

Os números evidenciam a hegemonia da região Centro-Sul, onde só São Paulo responde por 60% da produção nacional de açúcar e etanol. Estima-se que a agroindústria canavieira é responsável pela geração de 1 milhão de postos de trabalho, muitos deles no Norte-Nordeste, onde a abundância de mão-de-obra menos qualificada encontra ocupação (no Centro-Sul considera-se que uma colheitadeira elimina entre 80 e 100 empregos temporários). Produzindo açúcar o fabricando etanol, o componente social talvez seja a faceta mais importante dessa atividade econômica.


07/02/10 - Antoir Mendes Santos, economista
Fonte: Tribuna do Norte

    



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